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É possível pecar fazendo a coisa certa? PDF Imprimir E-mail
João 3:5 "Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus."

 

 


Será possível pecar mesmo fazendo a coisa certa? Será possível desagradar a Deus ainda que os nossos atos sejam bons? Estas perguntas nos surpreendem, uma vez que o nosso conceito de justiça se baseia somente nas esferas práticas. Na concepção de muitos, quem faz o bem está certo e quem faz o mal está errado. Mas será que as coisas são realmente tão simples assim?

Será possível pecar cumprindo deveres religiosos, ajudando pessoas e até contribuindo financeiramente com a Obra de Deus?

Tais questionamentos podem nos causar surpresa, mas a resposta bíblica realmente não está dentro dos padrões que traçamos do que pode ser considerado "certo" ou "justo". Nas escrituras podemos observar um sem número de pessoas religiosas, corretas ante os olhos humanos, mas que foram repreendidas por Jesus!

Em Mateus 23:23, Jesus fala aos religiosos judeus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!".

Observe que aqueles homens atendiam aos padrões de um bom convívio social e religioso. Reflita também sobre o fato de que eles cumpriam o que entendiam ser um preceito importantíssimo da Lei: davam o dízimo daquilo que produziam. O que poderia haver de errado, para que viessem ser recriminados pelo Mestre?

Há também um outro texto que gostaria de citar. Em Mateus 6, Jesus também condena a atitude de pessoas que aparentemente fazia a coisa certa. No verso 2, Ele diz: "Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa."

Ora, aquelas pessoas pareciam ser generosas! Hoje vemos muitos crentes que são incapazes de contribuir com um necessitado, mesmo sendo cristão e nem nos assustamos com isso. Aqueles homens davam esmolas, mas, ainda assim, estavam pecando!

No verso 5 a repreensão ganha outra perspectiva: a da oração. "E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa." Muitos não oram nem em pé nem de joelhos. Nem nas praças nem em casa. Já aqueles homens oravam, mas quando o faziam estavam pecando. Sim, pecando ao orar!

Agora, vamos ao verso 16 que mostra um outro caso: "Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa." Jejuar não parece ser uma prática comum para muitos de nós. Entretanto, para aqueles homens, jejuar acabou resultando em pecado.

Você já deve ter percebido que em todos estes casos relatamos e experiência de pessoas que fizeram a coisa certa, mas que pecaram porque fizeram com a motivação errada. O texto de Provérbios 16:2 diz: "Você pode pensar que tudo o que faz é certo, mas o Senhor julga as suas intenções" (NTLH). Isso esclarece porque é possível pecar mesmo fazendo a coisa certa.

Orar é fazer a coisa certa, mas fazê-lo para atrair a atenção dos homens é pecar. Contribuir na obra do Reino é uma prática acertada, mas ofertar negligenciando a Lei do amor é pecar. Fazer caridade é praticar a algo correto, mas fazer isso para atrair glória para si é pecar. Jejuar é bom, mas jejuar para parecer mais espiritual que os outros também é praticar pecado.

Tudo se baseia na seguinte verdade: o Senhor pesa os corações. O Senhor sabe as intenções dos nossos corações e se não estivermos com o desejo correto, mesmo fazendo o bem, estaremos pecando. J. Erickson, no Livro Introdução à Teologia Sistemática, em uma de suas definições para pecado, nos diz que "pecado é o cumprimento incompleto dos padrões divinos". Perece-me que este era este o erro dos religiosos da época de Jesus. Dar o dízimo, mas não amar, era realmente entender a vontade de Deus de maneira incompleta. Jejuar para aparecer e ganhar a admiração das pessoas, também.

Pecado não é simplesmente atos errados, pecado é uma disposição interior. Veja que quando Jesus pregava o Sermão da Montanha, deixou isso bem claro: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento...? (Mt 5:21-22a)."

Qual é a raiz do assassinato, senão a ira? Jesus nos mostra que o pecado de tirar a vida de alguém nasce num coração que se ira e ainda que o crime não venha a se consumar, o pecado já foi cometido no interior de quem desejou a morte do próximo.

Já em Mt 5:21-28, Jesus diz: "Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela." Onde nasce o adultério, senão num olhar malicioso originado de um coração mal intencionado? Cristo, de novo, vai à raiz do problema e mostra que o desejo ilícito do coração já se configura em pecado contra Deus.

Entender que o Senhor julga as nossas intenções nos desnuda diante de Deus. Não dá para se esconder, como tentaram fazer Adão e Eva. Todas as coisas estão patentes aos olhos de Deus e, até mesmo fazendo na prática o que Ele quer que façamos, deve haver em nós o desejo de agir com verdadeira pureza de coração, para com Deus e para com o próximo. As nossas atitudes devem refletir aquilo que realmente somos por dentro, caso contrário seremos tão hipócritas quanto os fariseus.

A palavra hipócrita vem de um termo grego que definia os atores de peças teatrais. Jesus chamou os fariseus assim porque eles apenas representavam um papel, mas não viviam nos seus corações aquilo que aparentavam ser. Deus não quer atores, quer filhos que tenham um coração verdadeiramente transformado por Ele.

Um coração mudado de tal maneira que não haverá esforço no fazer a coisa certa, mas prazer em fazer para a glória do Deus Eterno. Sem querer atrair aplausos para si. Se tentarmos, entretanto, viver o Evangelho de forma a cumprir apenas "deveres religiosos", transformaremos graça em Lei. Nos tornaríamos tão legalistas quanto os fariseus.

Os sinceros desejos de ser honesto, viver em santidade, jejuar e contribuir com a Obra e com o próximo, nascem de um coração verdadeiramente moldado por Deus. Devemos ser vigilantes para que não venhamos a pecar, mesmo fazendo a coisa certa.

 

Clériston Andrade

Programa Mensagem da Cruz

Juazeiro-Bahia

 
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